Dia 10: Huacalera (ARG) > Uyuni (BOL) - 500km
- Eles Vivem Viajando
- 2 de jan. de 2023
- 7 min de leitura
Atualizado: 28 de jan. de 2023
Segunda, 02/01/2023
E hoje começa o trecho mais duvidoso da nossa viagem: vamos para a Bolivia!!!
Como disse num post de abertura, a Bolivia não fazia parte dos nossos planos até 2 semanas antes da gente começar a viagem. Não sabíamos nada sobre o país, as estradas, a documentação, enfim, só sabíamos da "fama" de ser um país com muita corrupção por parte dos policiais, muito trânsito nas cidades, e estradas com más condições de pilotagem.
Mas depois que tivemos que abrir mão do Perú, e de Machu Picchu, que para mim era a "cereja do bolo"desta viagem, eu precisava achar outra "cereja". Sei que toda a estrada é maravilhoso e tals, mas eu queria ter um foco, um destino principal para chegar, uma meta.
E de repente, vendo os mapas, vi o Salar do Uyuni ali tão perto da gente... começamos a assistir os vídeos que pulamos os trechos de Bolivia, e ler todos os blogs que podia para me informar. Pesquisei hoteis, e achei um incrível lá dentro do salar, todo feito de sal. Então pensei: ta aí, o Salar do Uyuni vai ser a minha cereja do bolo! Vamos dar um jeito de chegar lá!
Estudamos o máximo que pudemos neste pouco tempo que tivemos, e também contamos com a ajuda de alguns amigos de instagram e youtube que gentilmente nos responderam com dúvidas sobre as estradas que não tínhamos informação. A decisão veio no dia 23/12, quando o casal do @motoviajeiros Michelle e Thiago nos respondeu no instagram e tirou uma dúvida crucial sobre a estrada que levava da cidade de Tupiza até Uyuni - até então, os vídeos que a gente via mostravam a estrada em obras, com alguns trechos de desvio não tão simples. Estava bem insegura de fazer esse trecho. Mas eles responderam que passaram por ela a poucos meses, e só tinha um pequeno trecho de terra com com passagem bem simples. Então, fechamos o hotel e confirmamos nossa ida para a Bolivia!
E agora, dia 2 de Janeiro, chegou o dia de passar por essa aventura: fazer a imigração, abastecer, e pilotar por estradas mais desconhecidas!
Saimos cedo do nosso Hotel. Do local em que estávamos na Argentina - Huacaleira - seriam menos de 200km até a fronteira com a Bolivia. O visual deste trecho continuou nos surpreendendo - passamos pela Serranias del Hornocal e vimos as 14 "colores" das formações montanhosas desta região. É grandioso, mas o dia estava apenas começando!

Aliás, quem está em Tilcara fica tentado a fazer um passeio de 25km de terra que leva até o "Mirador do Serro de 14 Colores". A gente ia fazer isso no dia 01, mas com a moleza que estavamos, não fizemos. Para a nossa surpresa, nessa estrada que leva até a fronteira, a gente pode avistar esse mesmo Serro, então se você pensa em fazer este trajeto um dia, talvez não precise ir neste "passeio" a partir de Tilcara!
Chegamos na fronteira por volta das 10h30. As cidades são La Quiaca - na Argentina, e Villazon - na Bolivia. Essa fronteira estava em obras, então os lugares para atendimento estavam bem precários. Inclusive tinha um aviso pedindo aos turistas para não usarem esta fronteira até Junho de 2023, quando devem terminar as obras. Nós não tínhamos opção de usar outra fronteira pois iríamos somente até Uyuni, e os outros locais de fronteira seriam bem mais longe.
O processo de entrada foi bem moroso e com falta de informação completa e segura por parte dos atendentes. Apesar da falta de informação, todos foram bem simpáticos e cordiais.

Essas foram as etapas:
1. Vistoria básica da documentação: quase sem fila, foi super rápido, apresentamos os passaportes e documentos das motos e recebemos um papel "passavante" com vários quadradinhos onde deveríamos receber os carimbos.
2. Saída da Argentina: este guiche estava com uma fila enorme, e segundo o pessoal que estava na fila, estavam ha mais de 1h sem nenhum funcionário para atender. Por sorte, quando pegamos a fila, esperamos uns 15' e o funcionário veio. Mas demorou um tempo para a fila andar e chegar a nossa vez. Apresentamos novamente passaporte e documento de moto, e ela fez o processo lá no computador. Enquanto isso, veio uma menininha vender gelatinas na fila, e engraçado, ela cutucou a turista que estava sendo atendida e pediu para ela perguntar ao atendente se ele não queria comprar gelatina... fico imaginado os americanos vendo essa cena hahaha
3. Entrada na Bolivia: este guiche foi mais rápido, com uma moça simpática que nos atendeu. Lá demos entrada na Bolivia, e também fizemos a documentação da entrada da moto. Essa foi a parte mais duvidosa, pois lemos que teríamos que pagar 50 bolivianos por moto e pedir autorização para passar pelas cidades previstas, e que teríamos que pegar carimbos em cada cidade que passássemos. Porém, a moça não nos cobrou nada e disse que o tal papel que ela nos deu - que era a declaração jurada - era tudo que precisávamos para andar de moto pela Bolivia. Não sei se a regra que eu li era para entrada pelo Brasil e não pela Argentina, mas enfim, esse era o medo de transitar pela Bolivia. Nunca tínhamos certeza de estar 100% de acordo com as regras. Na fila encontramos uma família de brasileiros que estava voltando, e eles confirmaram que só tinham aquele papel mesmo. E depois, mais a frente, paramos numa polícia de estrada que também confirmou que estava tudo certo. Enfim, foi o que fizemos e deu certo para este trecho!
4. Aduana: passamos pela vistoria das motos (eles confirmam se o chassi é o mesmo do documento - e para carros, eles vistoriam mais coisas como triângulos, extintor, etc), e pela vistoria rápida das bagagens.
5. Covid: paramos rapidamente num guiche de saúde, onde nos questionaram sobre nosso estado geral, mas não pediram nenhuma prova de vacina.
6. Pela internet: recebemos um papel com QR code para pedir nossa permanência na Bolivia. Isso deveria ser feito em até 48h após a nossa entrada. Fizemos quando chegamos no hotel e foi bem simples, tem que preencher o endereço de onde vamos ficar, e parece que a cada vez que mudamos de cidade / hotel tem que atualizar a informação.
E foi isso! Quase 3h depois estávamos em solo boliviano!!!! Prontos para o desconhecido!
Quanta emoção!!!!

Pegamos a primeira parte da estrada que liga Villazon até Tupiza. Esse trecho parecia ser certeza de estar 100% asfaltado, e assim foi. Logo passando uns 10km da fronteira já estávamos em estrada, isolados de gente, numa paisagem de grandiosidade absurdamente maior do que tudo que já vimos! A sensação era de estar no topo! Víamos muitos cumes de montanhas, ou vulcões, mas era tãaaao grande que impressionava.
Quando começamos a nos aproximar de Tupiza a paisagem foi mudando. As montanhas ficaram mais vermelhas, e aquelas formações semelhantes ao Monumental Valley dos Estados Unidos, que vimos naqueles 40km da saída de Cafayate na Argentina, se transformaram numa paisagem surreal e enorme, fazendo a Argentina parecer uma maquete, um protótipo, perto desta realidade da Bolivia.
Tentamos parar em Tupiza para almoçar, mas os restaurantes pareciam estar fechados. Paramos num posto de gasolina para comprar alguma coisa mas só conseguimos água e coca cola. Nos contentamos com isso e as bolachinhas club social que tínhamos ainda guardadas! Tupiza parecia ser organizada, uma cidade bem na base dessas montanhas vermelhas. Muitos ficam por alí e compram passeios de 4x4 que duram 3-4-5 dias para conhecer essa região da Bolivia.
Nós iríamos seguir com as nossas motos. A partir daí a estrada era desconhecida.
Mas felizmente a Bolivia esta investindo na pavimentação de suas rodovias, e a estrada 21 que liga Tupiza até Uyuni foi a estrada mais maravilhosa que fizemos na nossa viagem. Ela ainda tem um trecho de uns 800km de terra, mas fica num lugar tão lindo que até vale a pena ir bem devagar para apreciar a paisagem.

Essa estrada é cheia de curvinhas, e fora este trecho de terra, ela está com asfalto novo em excelente estado! As paisagens que se vê no caminho são indescritíveis. Se tem uma coisa que fiquei triste em perder a GoPro foi por causa dessa estrada, pois tinha gravado muita coisa alí. A gente subiu a 4.750m de altitude, nos sentimos muito pequenos perto do tamanho da natureza naquela região. No meio do caminho tem uma cidadezinha muito interessante, chamada Atocha, com construções típicas bolivianas, que me deu vontade de conhecer.
No final, ela vira uma reta de aproximadamente 50km até chegar em Uyuni. Neste dia, pegamos este trecho no final da tarde, e talvez por esse motivo, o clima já estava bem "agressivo" rsrrs - pegamos ventos laterias muito fortes, e uma tempestade de areia que impressionou! Não vimos nada igual! Eu que estava na moto de trás via a moto do Roger andar inclinada, de tanto vento que fazia. Quando passavamos em trechos que tinha um "guardrail" o vento dava uma pausa, a moto ficava reta por alguns instantes, e logo entrava na inclinação de novo!! O barulho no capacete era ensurdecedor, não dava quase pra conversar com o Roger pelo microfone! E também a visão estava bem prejudicada, pois voava areia de lado, ficava tudo meio marrom! Foi uma baita experiência, e mais uma vez, viver isso numa moto é sensacional! Pois a gente sente o vento de verdade, come areia, não se compara a estar fechadinho dentro de um carro!
Pois é, muitas emoções mas deu tudo super certo e assim que entramos na cidade de Uyuni o vento passou! A cidadezinha é beeem simples. Paramos em um posto de gasolina para abastecer, e por sorte deu certo. A moça que nos atendeu ainda foi legal e vendeu a gasolina pelo preço mais barato - para quem não sabe, na Bolivia tem 2 valores para gasolina: o mais barato é para os moradores locais pois o governo subsidia a gasolina; e a mais cara é para os turistas. A gente arriscou e foi na mais barata e não recebemos a "nota fiscal" do abastecimento. Já ouvi relatos de policial que pediu os comprovantes de pagamento de gasolinas para ter certeza que o turista pagou o valor certo - o mais caro - e se voce não apresenta, eles cobram uma "propina", caso contrário, apreendem o veículo e leiloam no dia seguinte! Vixe!
Nós arriscamos pois só íamos passar 2 noites na Bolivia, e íamos voltar pelo mesmo lugar de onde viemos. Então, já que conhecíamos a estrada, não tinham muitos pontos policiais e achamos que não correríamos risco.
Passando a cidadezinha de Uyuni seguimos ainda por mais 15km, pois nosso hotel ficava dentro do salar, numa cidade chamada Colchani. Esse trecho foi fácil, mas chegamos já no final da tarde, então não deu pra ver muito do salar pois estava escurecendo.
Mas gente, que emoção foi chegar no Salar do Uyuni na Bolivia!!! Que conquista!

Nesta noite jantamos no hotel, mas não foi falar dele hoje pois este post já está enorme!
Amanhã passaremos o dia por aqui, então conto os detalhes deste lugar amanhã - que faz jus ao nome "Palácio de Sal"!



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