Dia 7: Cafayate e Quebrada de Las Flechas- 130km
- Eles Vivem Viajando
- 30 de dez. de 2022
- 7 min de leitura
Atualizado: 28 de jan. de 2023
Sexta, 30/12/2022
Hoje era pra ser nosso dia de descanso... mas será que conseguimos?
A viagem de moto tem sido mais tranquila do que esperava. Apesar de já estar ha 3 dias na estrada rodando praticamente o dia inteiro, não me senti cansada!! Pode ser a emoção da viagem e das novas descobertas, pode ser por estar pilotando uma moto de conforto excepcional, mas na verdade acho que é uma mistura de tudo!
Acho que aqui vale um adendo sobre a moto: estou usando uma BMW 1250 "kit baixo". Essa moto é da categoria "big trail", moto bem estruturada para aguentar viagens longas, capaz de rodar bem em longas estradas de asfalto e terra, proporcionando segurança em curvas, chuva e qualquer situação adversa.

Eu, por outro lado, sou muito fã da Harley Davidson, tanto que a minha primeira moto foi uma Deluxe 2012 - moto que fiz toda a viagem do Uruguai. Mas apesar de ser apaixonada pela marca, entendo as dificuldades que uma moto custom tem para enfrentar as situações adversas de uma viagem deste tipo.
Na nossa viagem pelo Uruguai, tive problemas da moto desligar sozinha em plena ultrapassagem, acabar a bateria e nos deixar aguardando por dias para chegar as peças, perder as lanternas por trepidação da estrada, além de uma certa tendinite no braço direito por a moto não ter piloto automático (até tinha, mas ela um botão que ao girar prendia o acelerador, algo extremamente perigoso pois para desligar tinha que girar novamente e demorava alguns instantes).
Por esse motivo, na volta da viagem do Uruguai decidi investir na idéia de pilotar uma moto mais adequada a esse tipo de viagem que pretendíamos fazer. Experimentei a Ducati Multiestrada, com a qual fiz a Estrada Real aqui no Brasil, e tive uma rápida experiência com a Triumph Tiger 900 Low, que durou apenas 400km num final de semana. Falo mais detalhes sobre essas experiências em outros posts.
Mas como nenhuma delas deu certo, fui pra BWM! O Roger sempre foi um entusiasta da marca e já tinha a dele ha alguns anos. Sempre que pilotava a moto dele, parecia que estava planando sobre o asfalto, não sentia as trepidações de defeitos do asfalto, além de te ter todo o conforto de aquecedor de manopla, shift assistence, "freio de mão", entre outras inúmeras comodidades que a BMW GS oferece. Decidi então comprar a minha, mas olha, demorou muito pra eu me acostumar. Tive diversas "crises"com a moto, achava ela grande, pesada, e parecia que nunca iria me acostumar. Coloquei ela a venda umas 3 vezes, mas sempre que aparecia um comprador, eu desistia! rsrsrs
E no fim, fiquei com ela e a chance de realizar esta viagem finalmente chegou! Mas pra vocês terem uma ideia da minha inexperiência com a moto, lembro que no dia de saída me deu um branco de onde ligava a moto!! Eu pensei: como quero chegar até o Atacama se eu não sei nem ligar essa moto?
E agora, já em Cafayate e com 3.500km da viagem rodados, estou realizada e satisfeita com a escolha e a persistência de ter ficado com a moto e tentado sempre mais uma vez. Créditos também ao Roger, que sempre insistiu em dizer que esta era a melhor moto e teve muita paciência em me ajudar nas pilotagens, nos treinos no estacionamento da Cia Athletica e nas ajudas com as manobras de hoteis e estacionamentos que ainda não são fáceis para mim!
Pois bem, isso tudo para dizer que apesar de termos rodado bastante, hoje no nosso dia de descanso tínhamos 3 opções;
- fazer passeios a pé pelas vinícolas de Cafayate (que são muitas e muito bem faladas);
- contratar um passeio de 4x4 para conhecer a Quebrada de Las Flechas;
- ir de moto até a Quebrada de Las Flechas.
Nossa decisão: ir de moto para a Quebrada de Las Flechas.

Para vocês entenderem, a Quebrada de Las Flechas é um trecho da Ruta 40. Essa parte da estrada é toda de ripeo, pedrinhas, ou terra (como preferirem falar), e essa 'quebrada' fica exatamente no meio do trecho entre as cidades de Cafayate e Cachi. Os passeios eram de dia inteiro e levavam a gente até Cachi, que não era nossa idéia. O que queríamos ver era as formações rochosas que tem pontas inclinadas, formando uma paisagem surreal. Esse local ficava mais ou menos a 35km desde o início do trecho de terra. Como minha experiência com terra era quase zero, decidimos ir com uma moto só, e eu seria garupa neste passeio! Assim, caso tivessem trechos mais difíceis de passar, teríamos só 1 moto e 2 pessoas para executar a passagem.

Saímos por volta das 9h30 de Cafayate, pegamos uns 30km de asfalto até chegar no início do trecho de terra. Esse trecho de asfalto é lindo, passamos no meio de inúmeras vinícolas. E também por vários "badenes", que são os rebaixamentos da estrada para passagem de rios formados quando há o desgelo dos cumes nevados das montanhas.
Nessa época que passamos por lá (dezembro) os rios estavam completamente secos (aliás isso era algo bem engraçado, passamos por várias pontes sobre rios que só tinhas muuuitas pedras amontoadas). Mas já vimos vídeos no youtube de pessoas que passam por lá em outras épocas, e esses badenes estão alagados, verdadeiros rios mesmo, muitas vezes impossíveis de se cruzar.
O começo da estrada de terra foi fácil. Paisagem bonita, chão bem compactado. Mas aos poucos, aquela terra foi se soltando, formando bolsões de areia. Isso que torna a estrada perigosa, e por isso não conseguimos correr. Iamos bem devagarzinho, para tentar avistar os bolsões de areia com antecedência. Mas mesmo assim, logo no começo, já caimos em um!

Não foi nada de mais, mas a moto tombou, e tivemos que desatolar ela! A aventura tinha começado!!
Alguns metros mais a frente, tinha um trecho com muita água e lama! Lembro de termos pensado em voltar - hoje vai ser dia de visitar vinícolas!! rsrs Mas nessa hora, apareceu uma pickup que passou suavemente pela lama, e nos vendo ali parados observado, eles abriram o vidro e falaram: "logo ali tem um atalho por cima, esta seco e fácil de passar!". Fomos a pé para ver, e não é que estava facinho mesmo? Eles salvaram nosso passeio!! Nessas horas que vemos que quando estamos numa situação de impasse ou de apuros, ALGO acontece, o universo conspira, e de alguma forma a gente consegue seguir o nosso caminho!

E assim seguimos pela Ruta 40! A paisagem foi ficando cada vez mais linda, com formações rochosas impressionantes, até que conseguimos avistar a tal Quebrada de Las Flechas! Isso Não dá pra descrever em palavras, sequer em fotos e vídeos! Tem que ir lá visitar! Ver com os próprios olhos! Nunca tinha visto nada igual! Temos poucas imagens deste lugar pois perdermos nossa GoPro com o cartão de memória dentro, e ainda não tínhamos feito backup deste dia. Mas por sorte temos fotos do celular que dão uma breve noção do que é esta paisagem!

Paramos as motos, subimos em algumas pedras para ter um visual mais de cima, e realmente impressiona! Lindo, exótico, parece que estamos em outro planeta!
Pra quem é mais aventureiro e quer seguir viagem, basta seguir nessa rota por mais alguns km e se chega na cidade de Cachi. Dizem que a paisagem é linda do começo ao fim! Ainda vamos voltar e fazer esse trecho completo! Mas por hoje, nossa meta era chegar até alí e voltar para Cafayate, pois o nosso roteiro seguia pra um percurso próximo dalí que também prometia lindos visuais!

Então demos meia volta e voltamos pelo mesmo caminho que viemos . No retorno, paramos em algumas pequenas (pequenas mesmo) vilas, todas com uma igrejinha, para tirar umas fotos. Numa delas, fizemos amizade com vários "perros"que apareceram interessados nos nossos biscoitos hehehe.
Chegamos em Cafayate por volta das 15h. No total, esse passeio bate e volta durou 5h e 130km percorridos, sendo 70km de terra.
Quando chegamos de volta ao hotel, recebemos a notícia do nosso amigo Ed: ele já estava na cidade! Tinha conseguido nos alcançar! Então, tomamos um banho rápido e fomos até a praça encontrar com ele, que tinha acabado de almoçar, para comer umas empanadas.
Inacreditável poder encontrar com um amigo num lugar tão improvável! Ficamos muito felizes dele ter conseguido ir, afinal, a primeira ideia da viagem ao atacama tinha nascido numa viagem que fizemos com ele para Minas Gerais, há 3 anos atrás! E lá estávamos nós, "Los Tres Moteros de Los Andes", reunidos em Cafayate!

Após um breve bate papo deste encontro surreal, saimos para visitar pelo menos uma vinicola. Lá em Cafayate existem inúmeras vinícolas, e muitas delas estão a uma distância de 3km do centrinho. É possível conhecer muitas delas a pé, ou de bicicleta. Escolhemos uma aleatoriamente - a Vasija Secreta - e fomos a pé até ela, para fazer a mini degustação de vinhos e um breve passeio pelos toneis e plantações. O Ed que estava muito empolgado foi com sua Harley até uma vinícola mais famosa, a Las Nubes, e trouxe um vinho de lá que tomamos juntos mais tarde, realmente, muuuito bom!

Quem tem mais tempo pode perder (ou melhor, ganhar) uns 2-3 dias por alí. Além dos passeios próximos que podem ser feitos como bate e volta (quebrada de las flechas, quebrada de las conchas, ruina de quilmes), existem vinicolas muito boas que também oferecem hospedagem de luxo. Deve ser bem gostos poder se hospedar numa delas, beber bons vinhos a noite, e passar o dia seguinte de "ressaca" em suas piscinas com vista para a cordilheira! Cafayate é uma cidade relativamente quente de dia no verão, e de noite faz aquele friozinho gostoso, então um hotel com piscina para o dia e um bom restaurante para a noite cai muito bem!
Para nós, que ficamos hospedados no centrinho, também tivemos boas opções de restaurantes para jantar numa praça animada e cheia de turistas! Ficou o gostinho de poder voltar para experimentar outras opções de hospedagem, restaurantes e vinhos!



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